ESCRITOS DO GABRIEL
ESCRITOS DO GABRIEL
(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )
"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."
Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )
"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."
Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.
terça-feira, 29 de maio de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
Prêmio Sucesso Empreendedor na Cultura
Maior premiação do empreededorismo do Alto Vale destaca o potencial de empresários da região
Uma noite de homenagens, reconhecimento e muita comemoração. Esse foi o resultado da segunda edição do Prêmio Sucesso Empreendedor que premiou 18 empresários do Alto Vale do Itajaí.
Cerca de 300 pessoas participaram do evento promovido pela revista Sucesso S/A e realizado no Esporte Clube Concórdia, em Rio do Sul, na sexta-feira, 18 de maio.
O prêmio foi organizado em categorias de acordo com diferentes setores empresariais, além das categorias destinadas às microrregiões do Alto Vale e o Destaque na Internet, que contou com a votação através do site da revista Sucesso S/A. Os demais vencedores foram eleitos por um júri de excelência, composto por empresários e profissionais liberais de relevância no mercado do Alto Vale do Itajaí.
O evento contou com jantar à francesa e a empolgante apresentação cover de Elvis Presley. Após a cerimônia de entrega dos troféus e certificados, o público dançou ao som da banda Curingas durante a madrugada.
Vencedores do Prêmio Sucesso Empreendedor 2012:
- Sucesso Empreendedor do Ano: Silvio Prim (Proaço Estruturas)
- Sucesso Empreendedor Destaque da Internet: Unidavi
- Sucesso Jovem Empreendedor: Riciéri Ramlov (Atacado Juriel)
- Sucesso Empreendedor na Cultura: Gabriel Gómez ( Escritor - Jornal A Cidade)
- Sucesso Mulher Empreendedora: Helena Frahm Perfoll (NH Indústria e Comércio)
- Sucesso Empreendedor em Serviços: Miguel Delonei Berres (Delsoft Sistemas)
- Sucesso Empreendedor Socioambiental: Frigorífico Riosulense S/A
- Sucesso Empreendedor no Agronegócio: Harry Dorow (Cravil)
- Sucesso Empreendedor Arquitetura, Construção e Decoração: Nelson Regueira (RD Construtora e Incorporadora)
- Sucesso Empreendedor na Saúde: Rodrigo Gadotti (Gadotti Odontologia)
- Sucesso Empreendedor Têxtil: Orlando Molinari (Monnari Jeans)
- Sucesso Empreendedor no Comércio: Osnei Rahmeier (Siga-Bem Distribuidora)
- Sucesso Empreendedor na Indústria: Horst Bremer (H. Bremer)
- Comenda do Mérito Empreendedor: João Stramosk (Metalúrgica Riosulense)
- Sucesso Empreendedor na Região que abrange os municípios de Atalanta, Aurora, Chapadão do Lageado, Imbuia, Ituporanga, Petrolândia e Vidal Ramos: Silvio Prim (Proaço Estruturas)
- Sucesso Empreendedor na Região que abrange os municípios de Mirim Doce, Pouso Redondo, Rio do Campo, Salete, Santa Terezinha e Taió: Adinei Sandri (Grupo Sandri)
- Sucesso Empreendedor na região que abrange os municípios de Dona Emma, Ibirama, José Boiteux, Lontras, Presidente Getúlio, Presidente Nereu, Vitor Meirelles e Witmarsum: Genésio Ayres Marchetti (Manoel Marchetti Indústria e Comércio)
- Sucesso Empreendedor na Região que abrange os municípios de Agrolândia, Agronômica, Braço do Trombudo, Laurentino, Rio do Oeste e Trombudo Central: Rolando Arnold (Industrial Rex)
- Sucesso Empreendedor Destaque do Estado: Luciano Hang (Havan)
(Revista Sucesso S/A)
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Que nem eu
Um dia você abrirá os olhos, que nem eu. Acordará em qualquer lugar, suponhamos que aqui, neste triste espaço íntimo, parte do seu todo, objeto de repouso invisível, que nem eu. Por esta vez dirá, terei que esperar, e sentada, esperará. Então você pensará em contar, um, dois, três, até quanto acreditar que possa demorar. Mas não contará. E você pensará, não tenho paciência em contar, mas já que estou sentada, vou esperar sem calcular o tempo. Mas você não terá calma nem tempo para regular. Estará impaciente, calculando inconsciente toda espera, e tentará não pensar nisso, e possivelmente dirá, não sei há quanto estou aqui, mas vou ficar imóvel, talvez em transe a fila ande, e aí tudo aconteça sem perceber, e assim você fica. E quando se mexer, novamente, um pouco antes do então, num gesto singular, não haverá mais animação nem pausas para simular o alimento no deserto. Nem tempo para esperar. Estará excessivamente sozinha, e então você será como eu, depois nunca mais.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Veja a revista
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Lançamento Revista Ruído Cultural
Quinta-feira, dia 3, será o grande lançamento da Revista Ruído Cultural (no Bituin). Participo com 3 páginas dedicadas a livros e literatura.
E assim como fala sua proposta, a Ruído Cultural é uma revista distribuída gratuitamente com a linha editorial focada na Cultura & Comportamento.
Seu objetivo é fazer com que as pessoas tenham acesso facilitado à Cultura de nossa região, além de matérias atraentes, conteúdo relevante, design diferenciado e um espaço onde possam mostrar aquilo que fazem. Nós acreditamos, que desta forma, elas comecem a valorizar cada vez mais a cultura e as artes de forma geral, prestigiando mais eventos, sendo mais críticas e inclusive, cobrando mais espaço para do poder público e dos órgãos ligados à cultura.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Salto duplo (2)
Não se arriscava a pular
sem a rede de segurança.
Era um jeito de aparentar
o perigo que corria.
Embora a verdadeira façanha,
foi ocultar habilmente
as asas,
nas precárias roupas de trapezista.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Salto duplo
Giros, balanços, travas
sem contato do chão.
Não sei quantas voltas já dei,
mas justamente falhei
no salto duplo sem rede.
Fui um acrobata que no final
não encontrou mais tua mão
no pulo que inaugura esta morte.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Só empresto o que puder presentear
“Liberdade completa ninguém desfruta, mas, nos estreitos
limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda podemos
nos mexer”.
Graciliano Ramos
Odeio emprestar livros. Gosto de tê-los comigo, de relê-los se quiser, de tocá-los e sentir o cheiro da sua presença. Saber que eles estão aguardando, que já foram lidos e ainda esperam renovados a cada leitura. Mas como nunca consegui não emprestá-los, fiquei sem alguns e acabei perdendo não só o livro como a memória das pessoas a quem o emprestei.
Pensei fazer igual ao tempo dos antigos e valiosos manuscritos, onde era costume escrever pragas nos livros, amaldiçoando quem os furtasse. Cheguei até copiar um texto daquela época para colocá-lo em qualquer página e quando menos o leitor esperasse, dar de cara com a mensagem:
“A quem furtar um livro da minha biblioteca, que se transforme em uma serpente suas mãos e o subjugue, que seja atacado por paralisia e todos os seus membros sejam amaldiçoados. Que agonize em dor, gritando perdão. Que não haja descanso para sua agonia, até que se afunde na dissolução. Que os vermes de livros roam suas entranhas...”.
Mas ninguém precisou agonizar, ser atacado ou roído pelo remorso. Muito menos pedir perdão por isso. Entendi que, ao longo do tempo, nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, lembranças ou de páginas soltas, e tal vez em essas páginas esteja já o essencial, e cuja leitura foi uma felicidade e que gostaríamos inconscientemente de compartilhar. Classificar minha biblioteca foi uma maneira silenciosa de exercer o artifício do meu julgamento e, com ele, poder dividir meus gostos.
Comecei emprestando aqueles sem os quais eu poderia viver. Mas a dor foi de flagelo. Essa norma foi logo substituída por outra que descobri com a perda: só empresto o que puder presentear. Mesmo sabendo que ainda que comprando muitos outros, não serão nunca como esses. Que é um livro, se não o abrimos? Eles guardam parte de nós e merecem nosso cuidado. Um único livro ameaçado ocasiona uma perigosa perda na biblioteca universal. Eles eternizam nossa memória. Por isso acredito estar cercado de belas metáforas.
Talvez cada um de nós seja uma mera letra no complexo texto cifrado do universo. De fato deixei de emprestar livros, agora só os dou. E foi isso o que fiz quando soube da idéia de fazer uma biblioteca no presídio municipal.
Uma pesquisa da Universidade local tinha levantado que a leitura estava sendo feita só no pavilhão dos ‘isolados’, onde ficam os presos que, por uma razão ou outra, não podem deixar suas celas. Lá circulam, num caixote, velhos livros emprestados uma vez por semana, uma iniciativa que poderia estimular a todos agora, com a campanha de arrecadação. Ela coincidiu com o final da faxina na minha biblioteca e com a vontade de pôr ordem no caos literário de anos. Sem ordem, uma biblioteca seria um simples depósito de livros. Um caos no qual, às vezes, podemos suspeitar que exista uma outra ordem. Cada livro revelado ao lado de outro, e este, ao lado de um terceiro, ramificando-se pelas prateleiras, ganha vida própria, multiplicando-se entre estantes e corredores, procurando a biblioteca ideal, completa, inconcebível. Quando a vida cai, o mundo se desvanece e a biblioteca, iluminada por suas vozes, vira meu paraíso. Livros abrem portas, entortam vigas e podem levar à liberdade absoluta. Na biblioteca descobri minha tábua de salvação, meu antídoto, minha lâmpada dos pedidos e desejos. Uma ilha, na qual ancorei. Uma ilha chamada livro, à qual gostaria que chegassem as respostas escondidas, quando tudo o que ela consegue fazer é me trazer mais desejos. Livros me sacodem, mordem e me ferem como a mais dolorosa das desgraças, e me recuperam com o remédio diluído na tinta preta impressa no papel. No acúmulo e no desprendimento, achei minha companhia e meu consolo.
Entre os que primeiramente separei, fiz uma melhor seleção com aqueles que se encaixariam no perfil do suposto novo leitor. Fiquei realmente feliz ao descobrir livros de cuja existência não lembrava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para mim. Na verdade, minha preocupação tinha mudado, querendo encontrar alguns, tentando adivinhar gostos e preferência de quem pudesse lê-los.
A classificação aumentava e diminuía, descartava ou incluía e comecei a perceber que justamente aqueles que não tinham entrado na lista eram os que melhor ou mais facilmente seriam assimilados por eles. Mas afinal, a limpeza ou a escolha? Tentei ser imparcial e depois liguei para que alguém passasse a recolher minha doação.
Naquela mesma tarde um detento, daqueles que passam só a noite na prisão, veio em casa. Timidamente subiu a escadaria em caracol, à esquerda da entrada que leva até uma galeria com um pequeno piso de madeira que dá para a sala de leitura com estantes de livros alinhadas. Algumas delas apanhando poeira.
– Sua biblioteca parece ser enorme. Sua casa toda parece ser uma biblioteca... – falou notadamente surpreso, enquanto o imaginei olhando de cima para baixo a distribuição das prateleiras.
– Agora que está um pouco mais em ordem, assusta menos – respondi em tom de exagero – Tem que ver na confusão como parece um labirinto feito de colunas de volumes empilhados querendo engolir leitores... Muitas vezes me perdi em meio a velhos tomos de edições esgotadas, gravuras do século passado e enciclopédias as quais eu cheguei a ler como a um livro desde a letra “A”.
– O senhor parece feliz e empolgado quando fala dela...
– Quem conhece a biblioteca, conhece diversas felicidades, meu jovem...
Acredito que tenha ficado surpreso diante dos espelhos que propositalmente duplicavam as prateleiras até o infinito, e que agora cercam o mundo real de sombras e luzes a que estou acostumado. Quanto mais eu falava, mais ele parecia extasiado, demonstrando-me sua admiração por cada detalhe da sua estrutura. Ela possui em si a potencialidade do mágico. Em algum lugar dessa fabulosa arquitetura, existe uma porção diabolicamente divina ou uma chave que abre a porta do prazer desconhecido. E ele agora parecia estar descobrindo esse feitiço em cada passo que dava. Aqueles que eu já tinha escolhido estavam separados. Na realidade não sabia quantos eram exatamente, nem o título de todos. E foi justamente isso o que ele acabou perguntando:
– Sua doação parece ser a maior até agora. Quantos livros o senhor está doando?
– Na verdade não sei. Comecei a selecioná-los e não contei quantos...
– E no total, o senhor sabe quantos livros tem?
Poderia ter arriscado qualquer número parecido a cinco mil que a pergunta estaria respondida sem questionamentos, mas preferi não revelar nenhum número e responder que só quando terminasse minha arrumação poderia saber com exatidão.
– O senhor realmente quer doá-los? Não irá sentir falta?
– Possivelmente, mas é preciso decidir se queremos proteger e exibir os livros ou dá-los a ler. Ainda que não saibamos, sempre estamos voltando a ler o mesmo. Faço questão de dar aqueles que possivelmente tenho duplicados ou que agora possam ser mais úteis aos outros que a mim.
Poderia também ter argumentado que cada geração escreve o mesmo texto, conta o mesmo conto, publica em definitivo o mesmo livro. Com uma pequena diferença de voz, modulação ou acento gramatical... Que em todos meus anos de leitura, não concordei com muitos deles, embora sempre tenha percebido algo de sagrado e imortal na sua composição; mas preferi guardar algumas justificativas para mim mesmo.
No tempo que passou visitando os corredores, e enquanto conversávamos sobre minha doação, ele concordou em me ajudar a preencher um formulário com alguns dados, que depois assinei. Não consegui fingir. Confessei que preferiria contribuir dessa maneira, dá-los de presente a ter que emprestá-los e nunca mais vê-los. Que ficaria aflito sabendo que o livro que deveria andar de mãos em mãos continuava parado sobre as mesas ou nas prateleiras, impossibilitado de passar sua mensagem. Morrendo seu autor, a obra, o leitor e minha biblioteca. Ele contou que tinha aprendido a gostar de ler quando teve que cumprir sua pena de forma integral na cela.
– Imagino então que deverá ter outros cômodos, outras áreas cheias de livros....
– Não... Minha biblioteca está na sua frente, grande o suficiente como você pode ver. Os outros cômodos são apenas de leitura...
– Me pareceu ver uma prateleira com só um livro na parte de cima...
– Sim... Ela não é casual. Está com aquele livro que definitivamente não quis saber nada comigo. Sua leitura, seu entendimento e prazer me foram negados. Ele não me ama como leitor, não me escolheu para decifrá-lo e deve ser por isso que nunca consegui passar das primeiras páginas. E como a leitura é uma forma de felicidade, não me esforcei e acabei abandonando-o lá encima. Quem sabe se em outro tempo, quando ele consiga transformar-nos, não alcancemos essa revelação...?
– (...) Bom, agradeço e reconheço sua atitude e desprendimento. Eles serão muito bem aproveitados.
Quando apertou minha mão na despedida, percebi que estava tenso, algo preocupado. Assim que terminou de carregar, fez sua última pergunta:
– Por que fez questão de doar todos seus últimos livros, de ficar só com aquele único perdido na estante?
Fechei com calma a porta, respondendo sua dúvida com um sorriso. Para meus olhos cegos, aqueles livros agora estavam em branco. De todas as coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira. Embora seja rodeado por infinitas sombras de prateleiras e o eco de antigas leituras, estou condenado a viver no centro do seu labirinto. Que outra bela sorte me resta? Só aquilo que se foi é o que nos pertence.
Continuo sendo em silêncio a soma do que li e perdi e que ainda guardo como revelação.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Silêncios...
“Llega un día en que la poesía se hace sin lenguaje, día en que se convocan los grandes y pequeños deseos diseminados en los versos, reunidos de súbito en dos ojos, los mismos que tanto alababa en la frenética ausencia de la página en blanco”.
Alejandra Pizarnik
Fragmento de “Pequenos Poemas em Prosa”.
Publicado em “La Nación”,
Buenos Aires (21 de março, 1965).
“Se ha perdido el significado de la palabra más obvia.
Y aún escribo, aún me precipito con urgencia a narrar estados de asombro y de ira. Unalevísima presión, un nuevo reconocimiento de lo que te acecha y ya no escribirás. Estamos a pocos pasos de una eternidad de silencio”.
ibidem
29 de diciembre, París, 1962.
Lemos que o silêncio é o prelúdio de abertura a uma revelação. Por outro lado, o mutismo é o fechamento decidido a qualquer revelação; é a recusa em receber ou transmitir qualquer ideia ou pensamento; é a atitude deliberada de não revelar, nem por gestos ou palavras, a sua intenção ou pensamento.
O silêncio abre uma passagem, o mutismo a fecha.
Segundo as tradições, houve um grande silêncio antes da criação do mundo, e, ao final dos tempos, haverá outro ainda maior. O silêncio antecede e envolve os grandes acontecimentos, os grandes fatos. O mutismo os oculta ou os disfarça. O silêncio dá às coisas grandeza e majestade; o mutismo as degrada e as deprecia. Um marca o progresso; o outro indica uma regressão. O silêncio é uma grande cerimônia.
Este é um livro sobre silêncios. Mesmo que muitas palavras faltem e outras pareçam dissecadas, aprisionadas, evasivas, envoltas de mais silêncio. Difícil de ser alcançado. Para alguns, ausência de som; para outros, a arte de escutar o que não é dito. Prefiro a invisibilidade da palavra e sua nudez.
De forma parcial, conseguimos contemplar apenas seu eco, habitado de forma residual, inefável, interior, primordial. Todos eles convergem e se afundam em palavras que prescindem. De um silêncio vão a outro, ao acabamento da linguagem perfeita, reduzindo e dissolvendo para diferenciar sua voz. Seu ir e vir persegue o inominável. E o prolonga, alternadamente, de forma infinita. Somos o grande ouvido daquilo que se deixa ouvir. E nos interpela ou transpassa.
“Cada um possui seu próprio silêncio”, afirma o místico indiano Krishnamurti, que expõe, para que se escute, sem nenhum movimento do pensar, a partir da quietude completa, que “o silêncio que há entre as nuvens e o silêncio que existe entre as árvores tem uma diferença imensa. O silêncio entre dois pensamentos é atemporal; o silêncio do prazer e o do medo são palpáveis. O silêncio artificial, que pode fabricar o pensamento, é morte; o silêncio entre ruídos é ausência de ruído, porém, não é o silêncio, tal como a ausência de guerra não é a paz. O sombrio silêncio de uma catedral, de um templo, é um silêncio de séculos e de uma beleza especialmente construída pelo homem. Este é o silêncio do passado e do futuro, o silêncio do museu e do cemitério. Todavia, tudo isto não é silêncio.”
Silêncios e palavras que, de tão independentes, fazem de cada escritor seu escravo. Viajamos nelas e não são poucos os momentos em que sentimos sua ausência. Ficam engasgadas, presas e impedem nossa fala. E aí falamos muito, sem usar nenhuma. Outras, vazias, não representam o que queremos ou expressam o que elas próprias sentem. Levamos, de algumas delas, mordidas boca adentro. De certezas, tom e dizer errados; de momentos, medos e perdão. Elas têm a importância da oportunidade que não volta e a sabedoria daquela que está perdida. Às vezes fogem; esquecidas, são levadas pelo vento (na verdade ficam suspensas no ar e algumas, poucas, conseguem precipitar-se no fluxo misterioso da inspiração) ou têm o peso daquilo que nunca é dito. Alguns sentimentos não cabem nelas; então, por esse motivo, apenas conseguem suspirar. O que separa o desejo da palavra?
Julio Cortázar sabia que elas também sofrem: “Se algo sabemos, nós, os escritores, é que as palavras podem chegar a cansar-se e ficar doentes, como se cansam e ficam doentes os homens e os cavalos. Há palavras que, à força de serem repetidas, e muitas vezes mal empregadas, terminam por esgotar-se, por perder pouco a pouco sua vitalidade...”. Alguém já disse que deveríamos usar palavras como se tivéssemos de pagar para publicá-las ou dizê-las? E, claro, algumas seriam mais caras. Outras, de tanto valor, nunca poderiam ser ditas. Talvez falemos tanto para não dizer-nos os silêncios.
Há uma palavra, e apenas essa palavra é a que melhor expressa, a que, possivelmente, chegue mais perto do que sabemos ser inclassificável, inteligível. A eloquência analógica do indizível. As palavras, então, se detêm e nada manifestam. Olhamos sem ver o invisível; ouvimos sem entender o inaudível; tocamos sem ver o imperceptível; porque haveríamos de entender ou sermos afetados pelo silêncio diluído no próprio silêncio?
O escritor uruguaio Eduardo Galeano recomenda, com sabedoria, nunca escrever por escrever, mas escrever somente palavras que queiram ser melhores que o silêncio. Aquilo que desconhecemos costuma ser mal interpretado. E, prestar atenção a seu significado, é tentar interpretar com palavras aquilo que não tem nenhuma.
Todavia, Rubem Alves afirma que “todas as palavras, tomadas literalmente, são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua; toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!”
Reeduquemos, portanto, nossa percepção, acendamos e apuremos os sentidos, degustemos a palavra na boca, porque estamos rodeados de poesia e silêncio; e isto é uma grande cerimônia!
Eu não encontrei melhor forma de fazê-lo.
Introdução a meu livro “Cerimônias do Silêncio”
sexta-feira, 23 de março de 2012
De que falam os que falam sozinhos pela rua?
“Quem fala sozinho/ espera falar com Deus um dia”
Antonio Machado
De que falam os que falam sozinhos pela rua?* Com quem discutem, passeiam, ensaiam respostas? De que riem em alto e bom silêncio? Aonde vão os que não têm lugar? De onde voltam? (Lembro daquele bumerangue que não voltou porque encontrou Deus...). Resistindo, contrastando, cheios de ar, mas em pedaços.
Que desabafo morreu de angústia? E aspirou vida. Que monólogo acompanha o céu? (Que se nubla se tocado). Para onde olham rasgando paisagens? Enquanto a fome canta, desafinada...
Para onde não vão os que falam sozinhos na rua? Por onde passam? Detidos. Onde pára sua fala? Que passa. Quem cumprimenta calado, de muda testemunha, e junta entulhos de presença? Qual o limite? Que cruzam como uma rua ou um rio de água triste, de fumaça molhada, deserta. Parecem caminhar longe, porque longe tudo é mais leve.
Quem o alheio interlocutor que não aparece? Que platéia imaginária e muda responde ocupado? Respiram. Extasiados, distraídos, quase sem necessidade de voar; isso que os pássaros dizem escrever. Guardam secretos, falsos souvenires dos lugares, nos bolsos da calça. E lhes colocam nomes, para logo esquecê-los, nos mais remotos destinos. Sabem que é para isso que servem os segredos. Beijam cachorros de rua, que não latem nem mordem, de andares sem rumo, desorientados. E também falam com eles. Brincam com o silêncio, o nada e um pingo de morte cheio de vida. Inventam que não sentem dor. Descrevendo, insistindo com os inúmeros seres que os rodeiam e não sabemos, mas não se distraem.
Para quem os gestos e as palavras? Que desabam, repelem e abrem janelas? Talvez falem para todos (pensam em voz alta), o que todos apenas confessam em voz baixa.
Que ausência apontam seus dedos? O que justificam e não revelam? Anotam, oralmente, cartas nunca escritas, mandadas vagamente, com a vontade secreta de jamais serem lidas. Para quem a música assobiada, que ilumina silêncios de ternura apodrecida? Que faz ouvir sua própria fala? Que parece orar, de mãos juntas, insuficiente, precária; com olhos que não enxergam, porque também falam... E contam mais do que dizem.
Caminham sem pressa, ou param, já que tudo nunca chega, ou chega tarde a lugar nenhum. Nada é tão nosso, quanto deles o desejo por falar; ainda que a rua cale ou libere o que sentem. E encontram muito em muito pouco; provocam movimento, flutuam devagarzinho como silêncios que nos pegam no meio da fala.
Não abrem portas, apenas passam sua presença por debaixo delas, e olham pacientes pelo olho da fechadura, esperando. O espelho quebrado reflete a voz, mas não recolhe seu rosto; não serve para se olhar, apenas para enxergar quanto deles somos; quanto deles temos.
Enquanto nós falamos com máquinas que não funcionam, com plantas que crescem e os espelhos dos elevadores, eles falam sozinhos...
Como então encontrá-los sem nos perder primeiro? De que não falam os que não falam sozinhos? Por que não falam? Talvez os que falam se perguntassem. E por isso falam. Sozinhos pela rua.
– Está falando comigo?
– (...)
– Não. Desculpe.
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* Um curioso estudo publicado sobre diversos casos, identificou alguns tipos:
Aquele que não fala completamente sozinho, já que o faz com seus animais de estimação, que passam a compreendê-lo melhor que ele mesmo. Alguns com idioma próprio que, aparentemente, apenas eles conhecem.
O segundo caso parece com o primeiro, mas este fala com rádios e TVs, contestando argumentos e opiniões. Podem chegar a rir, ameaçar e até insultar. A falta de resposta dos aparelhos parece enfurecê-los ainda mais.
O seguinte é um monologuista agudo. Efetivamente, está acompanhado de um interlocutor, mas este não consegue responder nem intervir nunca, apenas ouvir. Na sua fala, logra não deixar pausas e silêncios, controlando até sua respiração, e assim ninguém conseguir interferir.
O seguinte tipo fala incansavelmente para si, a suposta resposta que deveria ter dito no dialogo que acabou faz tempo. Ele consegue retrucar, fazer que a mesma palavra tenha diferentes tons e ensaia até gestos, caras e bocas para finalmente dizer agora o quê, de forma arrependida, não disse antes. (Existe uma variante neste tipo: aquele que pratica antes todas as formas da fala daquilo que irá dizer, mas dificilmente consegue que seja igual).
O último caso podemos ver tradicionalmente falando sozinho com todos seus invisíveis interlocutores. Além disto, existe uma pequena porcentagem que também interage com outras pessoas, tentando dar a entender aos incrédulos que eles também podem participar.
Em todos os casos se recomenda calma. Eles não são muito diferentes de todos nós.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Um clássico
Certamente, o livro que eu estava lendo – um clássico da literatura – deve ter sido o responsável daquele curioso encontro.Não caminhei, como sempre, com a finalidade de encontrar o melhor e mais afastado refúgio do parque para sentar e ler. Preferi pegar um ônibus com um destino qualquer e, de tanto em tanto, olhar a nova paisagem se abrindo como um filme novo. Na volta seria o mesmo, e talvez conseguisse fazer essa contemplação pela janela por mais tempo, já que esperava terminar minha leitura até lá.
Não sei por quê, mas gosto de ler nas viagens. Enquanto alguns mal conseguem disfarçar a ansiedade para que o momento passe, eu me perco de tal modo nas histórias que meus livros contam, que a surpresa de não saber para onde estou indo se incorpora, de forma cúmplice e misteriosa, nas páginas de cada obra. Levo sempre meu jornal para cobrir sua capa e evitar exibir o que estou lendo. Curiosos existem em toda parte.
Mal podia imaginar que o cenário da minha leitura não iria acontecer fora do ônibus. Em uma das incontáveis paradas e momentos em que rapidamente levantei a cabeça, fazendo uma pausa na minha leitura, acabei avistando aquela mulher adentrar o ônibus. Ela se sentou no lugar que o homem de bigode exagerado, sobretudo preto, cheirando forte a cigarro e álcool, tinha deixado duas paradas antes. No começo, não pensei nada. Só percebi que alguém tinha saído e outro alguém tinha sentado ao meu lado. Só isso.
O percurso do ônibus, que eu não conhecia, me pareceu pouco prático para minha leitura. As curvas eram seguidas, os buracos constantes e as paradas contínuas. Deixei de ler para recuperar um pouco minha atenção. Lembro perfeitamente que eu estava vestindo uma daquelas confortáveis roupas de fim de semana, não muito preocupado com minha aparência. Nem a barba tinha feito. Se soubesse o que iria acontecer, teria tido um pouco mais de cuidado.
Admirei a paisagem das ruas e casas com muitas árvores de cedro e passei meus olhos ligeiramente por quem estava a meu lado. Foi quando percebi que ela também estava lendo.
Com uma estudada curiosidade, simulei estar observando qualquer outra coisa e olhei de lado, para arriscar enxergar qual era o livro. Seu autor, o título, ou ao menos que tipo de leitura era. Qualquer coisa. Justamente eu, que não gostava de mostrar ostensivamente a capa do meu, peguei-me com algum constrangimento fazendo o mesmo. Não enxerguei nada. Mas me pareceu que ela tinha descoberto minha invasora curiosidade literária e fiquei sem jeito.
– Gosta de autores clássicos? – perguntou, como se percebesse meu inexplicável e repentino interesse por sua leitura.
– Sim. Justamente o livro que estou tentando terminar de ler agora é considerado um dos melhores clássicos, ainda que monótono para quem não está acostumado – respondi, surpreso pela abordagem.
– Pois que coincidência, – disse, fechando o livro – eu também acho um pouco cansativo e até, às vezes, me pergunto: por que não ler aquilo que nos faça entender melhor nosso tempo? Mas todo clássico parece nunca esgotar aquilo que tem para dizer, não é mesmo?
Consenti com a cabeça e esbocei um sorriso. Com essa simples colocação, percebi que era uma leitora de respeito, que sabia daquilo que estava falando. Sempre fui leitor dos clássicos sem entender muito o porquê. Imagino que são livros que “devem” ser conhecidos de todos porque, supõe-se, carregam alguma espécie de conhecimento “obrigatório” para a compreensão da cultura ou, simplesmente, para a formação humanista. Ou como dizia Calvino, toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.
Pareceu-me também que ela tivesse gostado de mim ou, pelo menos, do meu livro, do meu gosto pelos clássicos. Por que escolheria justamente estar a meu lado, havendo tantos assentos? Por que falar comigo? – pensei, procurando alguma tonta justificativa.
Queria contar-lhe também que tenho inúmeros livros que, se eu tivesse mais vidas para viver, certamente os voltaria a ler, mas infelizmente os dias que me restam não são tantos assim. Que não gosto desta geração cujos hábitos de leitura se resumem apenas ao consumo de textos facilmente digeríveis, oferecidos em boa parte pela internet, essa infindável cadeia de fast-food do conhecimento! Mas achei meu comentário tolo e inoportuno, ante alguém que recém-conhecia.
O ônibus parecia não ter parado mais; não subia nem descia mais ninguém. Não fazia mais curvas, não entrava mais em buraco nenhum. Ainda que desconhecendo seu trajeto, me pareceu ter mudado radicalmente o seu caminho. Decerto era a distração que ela estava me causando. A paisagem lá fora passava despercebida.
Esperei sem saber o quê. Uma nova pergunta, uma nova abordagem literária ou alguma outra palavra sobre outro assunto qualquer. Afinal, ela praticamente tinha me provocado. Mas não falou nada. De repente, ficou calada como se nunca tivesse falado comigo. Fiquei nervoso e ansioso por querer continuar conversando. Olhei pela primeira vez diretamente para ela e o livro que segurava com tanto zelo, procurando algum gesto, algum aceno que pudesse servir para alguma palavra. Não encontrei nada, também. Sentia-me apreensivo. O que poderia esperar daquela situação?
O ônibus parecia andar mais rápido ou era eu que não queria chegar nunca ao meu destino?
Por que estaria tão preocupado, e revelando toda minha fragilidade emocional, a ponto de começar nitidamente a suar? Comecei a me sentir culpado por tudo: pelo que até aquela hora não tinha feito, não tinha visto nem ouvido. Por seguir as regras do meu jogo, minhas portas fechadas, minha autoabsolvição.
Meu velho medo de falar e o abandono para tirar o pó dos cantos da minha alma. As palavras que não disse a tempo e o significado das que ainda não tinha descoberto. Pelas preocupações que nunca se realizaram, pelos encontros a que cheguei tarde e aos que não fui para não encontrar a mulher dos sonhos. O cachimbo da paz, a terra prometida, o vento que seca meu travesseiro e o eterno brinde para o amanhã que será melhor. A compreensão detalhada das frases de um livro e a raiva por não entender ou decifrar os olhos com que ela me olhou. O importante sempre foi não abdicar da minha vida, mas viver intensamente e ver como os livros se encaixavam nela. Nem sempre deu certo, ao dar a eles a prioridade errada.
Meu desespero foi maior quando pensei que a qualquer momento poderia descer e não encontrá-la nunca mais. Não sabia o porquê. Talvez fosse inimaginável para mim a possibilidade de achar alguém que gostasse da leitura de clássicos na mesma viagem, sentada a meu lado e ainda puxando conversa. Não temos condições de ‘conhecer’ tantas pessoas, com tanta intimidade; porque precisamos nos conhecer melhor, ler melhor, buscando empatia com a vida.
– Humm, falamos de autores clássicos, de algumas páginas monótonas e sobre aquilo que um livro carrega consigo, mas ainda não sei qual é o livro que está lendo – custei a falar com uma certa coragem, esperando alguma reação.
Não sei se o barulho que vinha de fora, aliado às buzinadas do ônibus contribuíram para tampar minha tímida e gaguejante voz, mas ela continuou calada, como se eu não tivesse perguntado absolutamente nada.
Fiquei quieto, sem saber mais uma vez o que fazer. Pensei em repetir meu questionamento, mas desiludido, imaginei ser em vão.
Repentinamente, aconteceu aquilo que mais temia. Lentamente se levantou, sem olhar na minha direção, e sem se despedir com qualquer palavra. Caminhou até a saída e desceu do ônibus. Quando olhei seu assento, percebi que tinha esquecido ou deixado, quem sabe propositadamente, seu livro.
Abri prontamente a janela para avisar, mas o ônibus partiu, sem me dar tempo para nada. Pensei em descer, correr e devolver o livro, ou até mesmo em utilizá-lo como pretexto para algum futuro encontro. Logo me conformei em ficar com ele, ao menos como lembrança. Teria entre suas páginas algum pertence particular, seu nome em algum bilhete indiscreto ou um simples e despretensioso marcador?
Apanhei o livro e olhei-o com curiosidade para finalmente saber seu título. Constatei ser o mesmo que eu estava lendo. Mais confuso fiquei, quando não vi onde estava o meu.
Procurei embaixo do jornal e do assento, ao meu lado, e nada. Parei por um momento para refletir se ela realmente existiu ou foi só no coração do próprio acaso.
Quando o ônibus chegou ao seu destino final, já era noite. Desci, mas já não sabia se era um livro que apertava contra o peito.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Esses fantásticos livros voadores
Publico a versão integral do curta de animação que ganhou o Oscar: The fantastic flying books of Mr. Morris Lessmore (Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore), explícita declaração de amor aos livros.
Vamos voar juntos...
segunda-feira, 5 de março de 2012
O jogo em que andamos
Um poema de Juan Gelman que possivelmente faça parte da introdução do meu próximo livro...
Se me dessem a escolher, escolheria
esta saúde de saber que estamos doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me dessem a escolher, escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que passo por impuro.
Se me dessem a escolher, escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pães desesperados.
Aqui acontece, senhores,
que eu jogo com a morte.
Se me dessem a escolher, escolheria
esta saúde de saber que estamos doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me dessem a escolher, escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que passo por impuro.
Se me dessem a escolher, escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pães desesperados.
Aqui acontece, senhores,
que eu jogo com a morte.
Juan Gelman, O jogo em que andamos.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Da crônica da vida real
O investigador em inteligência artificial
desenvolveu um robô mensageiro
que transmite beijos a longa distância.
O dispositivo tem o formato de uma pequena bola
com lábios artificiais sensíveis ao tato.
A propaganda adverte que para que tudo funcione,
como no telefone,
se necessitam pelo menos dois.
Quando alguém quer beijar quem está longe,
segura o robô com paixão e beija seus lábios de silicone.
A outra parte faz o mesmo enquanto a pequena
maquina transmite o movimento de seus lábios
para quem está do outro lado.
Parece um beijo real, mas seu único defeito
é o barulho (assemelha-se a um porco),
o qual abaixa intensamente
o grau erótico da experiência.
Alguém poderia dizer-nos (ou perguntar ao inventor),
se é a solidão que faz
à maquina beijar
ou aproveitam a boca aberta
do mesmo bocejo?
(Extraído de uma notícia real)
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Que livro você é?
Eu descobri que seria "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis. O link para descobrir essa identidade literária está no portal Educar para Crescer do Grupo Abril.Na seção de testes você responde a uma série de perguntas que no final sugere um livro que tem a sua cara.
Além do título, o programa também tenta definir sua personalidade. Olha o que deu o meu...(Será?):
Ok, você não é exatamente uma pessoa fácil e otimista, mas muita gente te adora. É possível, aliás, que você marque a história de sua família, de seu bairro... Quem sabe até de sua cidade? Afinal, você consegue ser inteligente e perspicaz, mas nem por isso virar as costas para a popularidade - um talento raro. Claro que esse cinismo ácido que você teima em destilar afasta alguns, e os mais jovens nem sempre conseguem entendê-lo. Mas nada que seu carisma natural e dinamismo não compensem.
"Memórias póstumas de Brás Cubas" (1881) é considerado o divisor de águas entre os movimentos Romântico e Realista. Uma das expressões da genialidade de Machado de Assis (e de sua refinada ironia), há décadas tem sido leitura obrigatória na maior parte das escolas e costuma agradar aos alunos adolescentes. Já inspirou filme e peças de teatro. É, portanto, um caso de clássico capaz de conquistar leitores variados. Proezas de Machado.
"Memórias póstumas de Brás Cubas" (1881) é considerado o divisor de águas entre os movimentos Romântico e Realista. Uma das expressões da genialidade de Machado de Assis (e de sua refinada ironia), há décadas tem sido leitura obrigatória na maior parte das escolas e costuma agradar aos alunos adolescentes. Já inspirou filme e peças de teatro. É, portanto, um caso de clássico capaz de conquistar leitores variados. Proezas de Machado.
Quer ver qual livro você é? Faça o teste AQUI e depois me conte...
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Livros publicados no Brasil que falam de outros livros, escritores, livrarias, livreiros e bibliotecas
Num extenso e detalhado artigo sobre "Livros publicados no Brasil que falam de outros livros, escritores, livrarias, livreiros e bibliotecas", Maria de Jesus Nascimento, Doutora em Ciencias de la Información (Complutense, España). Professora do Curso de biblioteconomia e gestão da informação da Universidade de Estado de Santa Catarina, fornece um instrumento norteador do processo de seleção de coleções, capaz de ajudar o bibliotecário a formar acervos com obras que incentivem a leitura e contribuam para formar um país de leitores, com este fim levantou-se uma bibliografia através de busca a esmo, em livrarias, feiras de livros, bibliotecas, sites de livreiros e sebos, entre outros. Os 120 títulos, independentemente do gênero literário, falam de outros livros e de tudo que está relacionado ao mundo dos livros, daí o nome “livros trailers”, pois conduzem a outras leituras.Com muito orgulho, meu livro de 2008, "A culpa é do Livro", foi uma das obras analisadas.
Leia o texto completo AQUI.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Pausa
Volto logo... (?)
(Na verdade, pela frequencia de comentários e afins, poucos sentirão falta.)
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
O beijo
Um dos poemas que o poeta Carlito Azevedo apresentou na sua oficina no ano passado, foi “o beijo” de C. Tarkos, poeta francês que morreu em 2004. Além da sua singular leitura, o poema, mesmo traduzido ao português, é uma incrível música aos ouvidos e às sensações... O BEIJO
Um beijo. Eles se beijam. Ele toma sua boca em sua boca, ela toma sua boca em sua boca, eles se beijam. Ele abre seus lábios à sua boca, à sua língua, ela abre seus lábios aos seus lábios, à sua boca, à sua língua, ela gira sua língua em sua boca, ele gira sua língua em sua boca, ele descobre seu beijo, ela descobre a sensação de seu beijo, sua língua doce em sua boca, sua língua doce contra sua língua, ele envolve sua língua em sua língua, ele a mistura, ela gira sua língua contra sua língua, eles se beijam, ela a mistura, eles se misturam, ela cede sua boca à sua boca, eles se dão um beijo, ela lhe dá um beijo e sua língua, ele acaricia sua língua em sua boca, ela acaricia sua língua em sua boca, ela o deixa entrar, eles se amam, sua língua está em sua boca, ela mete sua língua em sua boca, seus lábios estão colados contra seus lábios, ela acaricia sua língua contra sua língua que gira em sua boca contra sua língua, acaricia sua língua contra sua língua quente e oferecida, ele mete sua língua em sua boca, e então eles se amam, eles se beijam.
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